Muitos imaginam que o propósito da liberdade cristã  é o benefício pessoal do homem. A Bíblia constata que, de fato, a terra foi criada sob medida para a raça humana, que é a excelência da criação, criados segundo a imagem e semelhança do Criador. Gênesis revela que Adão foi comissionado a exercer o domínio sobre a terra e as outras criaturas. Entretanto, alguns acreditam (e ensinam) que a razão de existir do universo é antropológica. Estes alegam que, filosoficamente falando, o homem é o centro do universo, e que a glória de Deus é um objetivo secundário.

Essa visão exagerada faz com que muitos creiam que é possível manipular o universo, e/ou o mundo espiritual com palavras, para o próprio benefício. É criado, então, um sistema filosófico extremamente egocêntrico (conceito completamente alheio às Escrituras Sagradas) e ofensivo a Deus. Infelizmente, tais crenças são propagadas dos púlpitos de igrejas intituladas evangélicas. Por exemplo, um escritor cristão muito influente no Brasil recomenda que seus leitores “visualizem” o objeto, ou posição/status desejado, até que aquilo seja gerado dentro da mente; a partir daí, o crente precisa “receber” a promessa.[1] É fundamental, segundo outros autores que promovem esse engano, que o crente se imagine dirigindo o carro novo (caso essa seja a possessão desejada), ser específico quanto aos opcionais, cor, modelo, e ano e passar a “declarar” a posse do automóvel. A partir de então, Deus, supostamente segundo a fé do fiel, manipulará o universo a favor do mesmo, segundo as exigências feitas nas orações. A vontade divina é geralmente ignorada e qualquer resposta inferior àquilo exigido é considerada falta de fé!  

            Tal filosofia de ministério emerge de uma visão perigosamente simplificada do Deus Todo-Poderoso. Obviamente, uma leitura consistente da Palavra de Deus revela que misticismo não é capaz de produzir verdadeira espiritualidade. O crente não tem o poder para manipular o mundo espiritual e nem é instruído a arrogantemente ordenar bênçãos de Deus. Isso porque nem mesmo o propósito da salvação é primeiramente a glorificação do homem. Toda a criação existe, segundo a Bíblia, para um único propósito: glorificar a Deus. Assim afirmam o salmista (Salmos 19:1), o profeta (Isaías 43:6-7), e o apóstolo (Efésios 1:3-6, Colossenses 1:16).

Justamente para evitar que seus leitores adotassem uma filosofia de vida antropocêntrica, Paulo termina o capítulo dez de sua primeira epístola aos coríntios com o verso-chave que resume a essência da liberdade cristã: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor. 10:31). É imperativo que pastores ecoem essas palavras a seus rebanhos. Isso porque a soberania humana tem sido cada vez mais propagada dos púlpitos do mundo, principalmente daqui dos EUA, e a causa tem feito adeptos com uma rapidez alarmante. O líder comprometido com a mensagem bíblica, entretanto, deve identificar tais heresias e proteger sua congregação das mesmas, explicando como lidar biblicamente com interesses próprios, alheios, e divinos. Tal esclarecimento está registrado em 1 Coríntios 10:23-33.

A busca incansável por conforto e satisfação pessoal é incompatível com as Escrituas Sagradas. Vontade própria é irrelevante no processo da obediência ao verso citado acima. Consequentemente, autonegação é essencial para o amadurecimento cristão. Paulo ordena aos coríntios que: “Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem” (1 Cor. 10:24), e aos Filipenses:“não olhe cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (Filipenses 2:4). Porém, o maior exemplo de renúncia de interesses próprios foi dado por Jesus. O propósito de vida do Mestre não foi ser servido, mas dar a sua vida em resgate de muitos (Marcos 10:45). Deus é glorificado quando seus servos abdicam de seus direitos, vontades e desejos tendo em vista, não a edificação própria, mas a do corpo de Cristo (1 Cor. 10:23). O pastor que não exorta sua igreja assim perde a oportunidade de promover um amadurecimento saudável em sua congregação, que ocorrerá mesmo que alguns irmãos deixem o ministério.

O propósito da liberdade cristã, ao contrário do que muitos pensam, não é licenciar o crente a agir segundo a sua própria vontade, buscando seus objetivos pessoais. O autor de 1 Coríntios, além de explicar que o altruísmo é vital para a obtenção de verdadeira espiritualidade (1 Cor. 9), exemplifica esse princípio em sua conduta. Ele afirma que procura, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos (1 Cor. 10:33). De fato, a maior necessidade do homem é a de salvação, pois já nasce morto em seus delitos e pecados (Efésios 2:1) e, consequentemente separado de seu Criador (Rom. 3:23). Promessas questionáveis em relação à sucesso e prosperidade aqui na terra podem trazer popularidade a quem as faz, mas não retrata a mensagem nem o modelo apostólicos. O pastor fiel deve estar disposto a se sacrificar pelo seu rebanho, caso contrário deve reconsiderar o seu ofício. Planos pessoais em transformar a igreja em fã-clube devem ser abandonados. A tentação em diluir o evangelho com elementos de autoajuda deve ser resistida a qualquer custo. A congregação, então, ouvirá uma mensagem ofensiva à mente humana, e que faz demandas morais aos ouvintes (de fato, loucura aos que se perdem), porém, exclusivamente qualificada para produzir verdadeiras conversões – poder de Deus aos que são salvos (1 Cor. 1:18).

Finalmente, os leitores de Paulo deveriam compreender que a liberdade do crente tem por finalidade promover os planos divinos, dentre os quais, a salvação de muitos (1 Cor. 10:33), ocupa lugar de destaque. Pedro, em sua segunda epístola, explica que a longanimidade de Deus é o grande motivador desse desejo (2 Pedro 3:9). Entretanto, o interesse divino mais negligenciado pela igreja é o evangelismo. Estima-se que apenas dois por cento dos crentes compartilha o evangelho com vizinhos e amigos aqui nos EUA.[2] Dessa porcentagem, sabe-se lá quantos anunciam a mensagem bíblica e não uma uma falsa imitação desenvolvida para satisfazer a tolerância do homem com o seu pecado. O pregador que se considera um embaixador de Cristo deve se esforçar para executar a vontade daquele que o chamou. Para isso, revisões de suas práticas de evangelismo (e o ajuste de eventuais incompatibilidades com a mensagem bíblica) devem ser efetuadas periodicamente.

A Palavra de Deus é clara quanto à essência da liberdade cristã. A glória de Deus, e não a do homem, deve ser o objetivo de todo seguidor de Jesus. Consequentemente essa deve ser a mensagem e o modelo de todo pastor às suas congregações.         


[1] David (Paul) Yonggi Cho em: A Quarta Dimensão

[2] Ray Comfort e Kirk Cameron em: The Way of the Master.

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