Bread and Wine
Caio Plínio Cecílio Segundo, também conhecido como Plínio, o novo, governador romano da Bitinia, durante a sua regência ente 111 e 112 dC se correspondia regularmente com o imperador Marco Trajano. Numa de suas cartas, o jovem administrador revela uma branda simpatia pelos cristãos. Ele afirma: “Tenho procurado adquirir o máximo de informações possíveis sobre esse grupo. Comissionei espiões a se infiltrarem e a se batizarem, fingindo serem adeptos, a fim de terem acesso sem desconfiança. Verifiquei que eles se encontram regularmente num dia determinado da semana e cantam hinos a Jesus, cultuando-o como Deus. Constatei também que eles sempre leem o seu livro sagrado e compartilham de uma refeição simples constituída de pão e uma mistura de vinho e água (a água, pelo que entendi, tem por função diluir o vinho, a fim de que todos sejam servidos). Por fim, averiguei que há no meio cristão a exortação mútua, a submissão ao nosso governo, e a oração por todos os homens”. (Plínio, Epístola 97, em http://www.fordham.edu/halsall/source/pliny1.html, acesso em 22 de Julho de 2010, tradução e paráfrase minhas).           

            O que impressionou a Plínio foi uma característica peculiar da igreja antiga, certamente algo a ser reproduzido por congregações contemporâneas e promovido por pastores e líderes eclesiásticos. O padrão bíblico para a igreja local é comparado a uma família e não necessariamente a uma corporação. Reuniões frequentes, hinos de louvor e adoração a Jesus, a celebração das duas ordenanças, responsabilidade mútua, e obediência às leis civis; além da produção de novos discípulos e o cuidado com o rebanho, são atividades sem as quais o Corpo de Cristo se torna incapacitado de apresentar um testemunho positivo.  

Esse era o triste caso em Corinto. Através dos relatos de uma família (os da casa de Cloe), o apóstolo Paulo registra que a igreja localizada na região da Acaia não era muito eficiente no quesito comunhão. Por isso ele inicia o segundo parágrafo do capítulo onze de 1 Coríntios com uma severa admoestação. O assunto não é motivo de louvor, mas de repreensão aos leitores (1 Cor. 11:17). O apóstolo reprova a conduta deles na celebração da ceia do Senhor e explica mais detalhadamente as características dessa ordenança. Isso porque ele entendia que a compreensão dessa celebração é fundamental para o amadurecimento espiritual do crente. De igual modo, o pastor que investe tempo e energia em educar a sua congregação em relação a eucaristia tem o doce prazer de acompanhar o amadurecimento de seu rebanho. Consequentemente, o bom testemunho na comunidade será inevitável.

Segundo o modelo paulino, durante a observação da ceia do Senhor, é necessário atentar às condutas a serem evitadas (1 Cor. 11:17-22) e às características a serem enfatizadas (1 Cor. 11:23-34). A primeira atitude reprovada pelo autor da carta é a desunião entre os irmãos. Os cultos nas igrejas em corinto não produziam “o que é melhor”, e sim “o inferior”. O problema a ser corrigido, ele indica, é a existência de facções. Durante os cultos públicos as discórdias na congregação eram evidentes, e certamente causavam uma péssima impressão aos de fora.

A seguir, Paulo explica o real motivo da sua preocupação. Apesar de as tradições terem sido mantidas (1 Cor. 11:2), a postura estava errada (1 Cor. 11:20). Havia quem comesse o pão da ceia antecipadamente por querer evitar a comunhão com as outros grupos. É provável que os de baixa renda tivessem sendo excluídos da solenidade, considerados casta inferior. O apóstolo adverte também àqueles que vinham ao culto com fome, esperando para comer, e aos que se embriagavam durante a eucaristia. A exclusão arbitrária e o abuso do vinho (1 Cor. 11:22) promoviam divisões, e consequentemente uma má reputação entre os não cristãos.

Lamentavelmente, o mesmo problema ocorre em igrejas contemporâneas. A observação religiosa da ceia por parte de muitos, por vezes esconde sérias questões provenientes de um coração egoísta e obstinado. Grupos dissidentes reivindicam causas inúteis e irrelevantes ao bom andamento do Corpo de Cristo (como por exemplo, estilo de música, ou a cor do carpete do santuário) e a união do grupo é comprometida. O pastor sábio deve, portanto, identificar tais tendências e, pela autoridade da Palavra de Deus e com mansidão, instruir os que se opõem à boa comunhão.      

As instruções apostólicas a seguir (1 Cor. 11:23-34) são voltadas à explicação da ordenança instituída por Cristo. Paulo afirma que recebeu as informações a respeito da ceia do Senhor diretamente de Jesus. Ele faz uma breve revisão dos fatos ocorridos na ocasião da noite da traição por parte de Judas, quando os discípulos aprenderam a respeito da nova aliança. Não há nenhuma indicação no texto que os elementos se transformem literalmente no corpo e no sangue de Cristo (noção conhecida por Transubstanciação). O simbolismo representa,  primeiramente, uma celebração da obra redentora na cruz (1 Cor. 11:24-25). Jesus afirma, segundo as palavras de Paulo, que o cálice é o “novo pacto”, ou “nova aliança”. O termo grego aqui (diatêke) denota um testamento que garantia aos herdeiros o recebimento dos benefícios na ocasião morte do benfeitor. Portanto, a ceia, entre outras coisas proporciona uma oportunidade ao crente de se lembrar da gloriosa herança que tem no Senhor.

Em segundo lugar, a ordenança também representa uma ratificação (1 Cor. 11:25). Isso porque a menção de uma nova aliança demanda o entendimento de que há uma testamento antigo. Segundo Jeremias 31:31-34, a nova aliança seria feita com a casa de Israel e com a casa de Judá. Uma das cláusulas desse pacto inclui a redenção nacional de Israel, um evento ainda futuro (que ocorrerá durante a tribulação dos fins dos tempos, descrita em Daniel e Apocalipse), porque o endurecimento de coração da nação é temporário, até que todos os eleitos gentios sejam salvos (Romanos 11:25-26). Embora essa promessa tivesse sido designada a Israel, todos quantos receberam a Jesus têm direito à herança, porque são filhos de Deus, não nascidos do sangue nem da carne, mas da vontade divina (João 1:11-13). Portanto, a ceia do Senhor representa também a garantia da herança reservada ao cristão.

Em terceiro lugar, a ceia é uma proclamação do evangelho. Durante a eucaristia, o visitante tem a oportunidade de ouvir claramente a respeito da cruz e também é exposto à esperança da volta de Cristo. Durante o seu ministério na terra, Jesus anunciou a sua morte e ressurreição, mas também prometeu voltar (João 14:1-3). A segunda vinda do Messias ocorrerá primeiramente para a igreja, no evento conhecido como o arrebatamento (1 Tessalonicenses 4:13-17). Nessa ocasião somente os que estão em Cristo o verão. Esse será um encontro nos ares onde os mortos ressurgirão primeiro. Estar em Cristo, portanto, é, além de ter a presença espiritual de Jesus constante, é ter a esperança da glória (Colossenses 1:26-27).

Em quarto lugar, a celebração da ceia do Senhor promove a oportunidade para uma avaliação (1 Cor. 11:27-32). Além de considerar o passado, ou celebrar a morte redentora de Jesus e o futuro, em esperança do encontro pessoal com Jesus; o cristão, durante a eucaristia, tem um tempo de introspecção. Esse é o momento de restaurar conflitos, perdoar o próximo, e confessar pecados a Deus (não ao sacerdote, ou padre). O líder congregacional deve instruir o seu rebanho quanto essa autoavaliação. O congregante deve, então, certificar-se de que está em Cristo, pois esse é o requisito para a participação da ceia do Senhor. Não há restrições quanto ao batismo ou afiliação a determinadas denominações. Porém, participam da solenidade somente quem é cristão, segundo as instruções bíblicas. Comer do pão e tomar do cálice dignamente não significa perfeição, ou espiritualidade elevada (pois assim, ninguém participaria). Todos os santos são sacerdotes (1 Pedro 2:9). Por essa razão o pastor, o presbítero, o diácono, ou o frequentador que não tem cargo oficial nenhum e/ou que acabou de se converter, devem participar igualmente. A liderança da igreja local só tem permissão bíblica de proibir a participação de alguns no caso de disciplina congregacional (confira 1 Coríntios 5)  . O motivo é que só é “réu do corpo e do sangue de Cristo” aquele que rejeita o evangelho (não há condenação para quem está em Cristo Jesus  – Romanos 8:1).

Em último lugar, segundo o texto paulino, o momento da ceia deve ser o hora de reconciliação (1 Cor. 11:33-34). diferenças, rancores e mágoas devem ser desfeitas. Esse é o motivo pelo qual o apóstolo instrui seus leitores a esperar até que todos sejam servidos. Esse momento representa a união entre os irmãos. Não há classes sociais dentro do Corpo de Cristo. Todos são batizados (colocados “em Cristo”) em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres, e a todos foi dado beber de um só Espírito (1 Cor. 12:13).

Em algumas igrejas, lamentavelmente,  o(s) líder(es) dão a entender que estão num nível elevado de intimidade com Deus. Muitos ensinam que para atingir tal espiritualidade é preciso adquirir uma “segunda bênção” (muitos afirmam, equivocadamente, que isso é o batismo do Espírito Santo, adquirido depois da conversão). A Palavra de Deus, entretanto, afirma que o crente é completo em Cristo, e abençoado com toda a sorte de bênçãos espirituais (Efésios 1:3). Pedro afirma que“o seu divino poder nos tem dado tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo pleno conhecimento daquele que nos chamou por sua própria glória e virtude” (2 Pedro 2:13 – grifo meu).  

Em dia de celebração da ceia, pastores devem repetir a ordem apostólica. Primeiramente, os presentes devem examinar o próprio coração. Em seguida, contendas  e divisões devem ser eliminadas e reconciliações asseguradas. Por fim, é preciso evitar transformar a ordenança numa liturgia morta, um ritual mecânico. Isso porque a natureza humana tende a inventar regras para que, na observação das mesmas, haja o pensamento equivocado de que o homem é merecedor do favor divino. Isso se chama farisaísmo, ou falsa espiritualidade; algo que Jesus condenou veementemente.

Se Caio Plínio enviasse espiões à muitas congregações evangélicas hoje, o relato não seria tão positivo. Certamente ele registraria uma triste negligência para com as Sagradas Escrituras, motivada pelo medo, por parte de alguns pregadores, da perda de popularidade. O jovem governador se espantaria com a grave similaridade entre a sociedade secular e a igreja. Filosofias ministeriais motivadas pelo desejo por relevância também causariam escândalo ao regente. Por fim, o resumo dos soldados infiltrados certamente incluiria a observação da ceia do Senhor, mas poucos seriam os pastoes identificados por explicarem a bênção da comunhão, parte do significado bíblico dessa ordenança.

photo credit: khrawlings via photopin cc

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